01/11/2014

Da vida

Sentimentos, tão iguais que podiam ser públicos
Em corpos, aparentemente, particulares

Pecados, tão originais, repetidos
Em linha de montagem, como primeira vez

Corações, tão estrondosos, em surdina
Sob as caras cujos olhos não os veem

Mas... estações, passageiras, onde (só) tu sabes estar
Para lá de relógios partidos e horários trocados

Viagem maior, sem sair do lugar
Por dentro e por fora, sempre a mudar

Perspectivas

Rio correndo em sólido leito
Céu soprado a tinta-da-china
Harpa tocada com dedos de vento
Tapete bordado a pé de flor, voador

13/09/2014

Meu medo, amor

O amor tem metade do medo.
O medo tem metade do amor.
O amor e o medo têm metades um do outro.

No centro do amor está uma parte do medo.
Nas pontas do medo está o meio do amor.

O medo é amor partido, separado.
O amor é medo envolvido, integrado.

O amor integra o medo.
O medo parte o amor.

28/08/2014

Days of open hand

Abrir mão é tê-la aberta
Oferecer a palma ao mundo
Receber vida ao segundo
Ter caminho por destino
Ser pé, ponte, ser passagem
Deitar no leito da viagem

É devagar deixar correr
É ser corrente sem prender
Embalada em movimento
Deste fluxo fazer linha
Descobrir a sina minha
Escrita em páginas de carne

E se outra palma eu encontrar
Que ela possa aqui pousar
E se a ventura disser não
A sardinha pingue no pão

11/08/2014

Permanecer, na mudança

Li num artigo do José Tolentino Mendonça que "perseverança" é em grego "proskateresis", «um composto de duas palavras: "pros" (que significa "manter-se ainda" ou "ir além") e "karteria" (que significa "constância")». Lembrei-me daquela terra verde, em cascata, à beira-rios. Pequeno paraíso onde me apetece demorar. Lugar que descobri em périplo singular, como é a vida, e por onde caminhei acompanhada, como às vezes acontece nesta. Foi a terra que acolheu Camões, desterrado de Lisboa, por pecados de amor («Erros meus, má fortuna, amor ardente», «qual em nós mais frequente, cada vez mais frequente»). Quem a olha pode pensar que foi sempre assim. Mimosa, amena, acolhedora. Não adivinha que é frequentemente galgada pelo Tejo, que em dias normais a abraça calmamente. Nem que se chamava Punhete.

17/10/2013

Pequenos prazeres

Passar na rua por alguém com um sorriso 33. Ficar com aquela sensação "eu sei que você sabe, que eu sei que você sabe". Embora não saiba o quê. :)

10/09/2013

Lições da globo


Quando, uma novela, me mostra a alma humana, em todo o seu esplendor de complexidade e contradição, eu páro e penso. E depois, sigo o caminho.


06/09/2013

Para ser grande, sê inteiro


Eu era ainda uma miúda, mas já presa, cansada e cheia de medo. Ela era já grande, e provavelmente também presa, cansada e com medo, como, às vezes, todos nós, mas também disponível, sensível, intuitiva, sábia, generosa, poderosa…
A mim, nascida para cuidar, mostrou ser necessário amar-me e deixar-me amar, bem. Desarmadamente afectuosa, lá foi baixando as minhas defesas. Com paciência de Jó, caminhou ao meu lado, devagar, muito devagarinho. E bailou comigo as minhas coreografias de um passo à frente e dois atrás, num estrado feito de curiosas espirais, de oitava acima.
Pela estrada fora, fui descobrindo um património comum, natural, sobre o qual acrescentámos novas pedras. A ânsia de Marta com muitas coisas, quando só uma é necessária. A escolha de Maria pela boa parte. A ponte como passagem… ou miragem? O Assentamento de Chico. O Tempo de Ary. A Canção de Milton. O “Não tenhais medo”, de todos nós.
Hoje, já não sou uma miúda. Será? Mas sei que há sempre prisões, cansaços e medos, na peregrinação rumo à Cova da Iria, de cada um. Ela também. E sei que ela é grande, maior, enorme, gigante. E ela também.